Melanosis coli

Melanosis coli
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Melanosis coli consiste na presença de pigmento marrom em macrófagos na mucosa do intestino grosso1,2. A condição, descrita pela primeira vez por Cruveilhier, em 18293, e chamada de melanosis coli por Virchow em 18574, foi inicialmente pensada como sendo devido à presença de melanina. No entanto estudos mostraram a presença de grânulos de lipofuscina ao invés de melanina em macrófagos do cólon2,5. Desse modo muitos sugerem o uso dos termos “pseudomelanosis coli” ou “lipofuscinose” do cólon para descrição dessa alteração.

Existe uma forte associação entre melanosis coli e uso excessivo de laxantes, em particular derivados de antraquinona6, embora também possa ser visto em pacientes com doença inflamatória intestinal5, diarreia crônica7ou com o uso de anti-inflamatórios não esteroidais8. É causada pela apoptose de células epiteliais do cólon induzida pela antraquinona, seguida de fagocitose dos restos celulares por macrófagos9.

A melanosis coli é mais frequentemente detectada durante a investigação da constipação de longa data e associação com uso crônico de catárticos de antraquinona (incluindo cáscara sagrada, senna, aloe vera e ruibarbo). Essa pigmentação ocorre em geral de forma mais pronunciada em cólon direito e raramente acomete íleo, no entanto sua localização e intensidade podem ser variáveis6. Vide figuras 1 e 2.

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Figura 1: melanosis coli em ceco

Figura 2: melanosis coli em sigmoide

A presença de melanosis coli tem associação com um aumento significativo na detecção de adenomas, em especial ≤ 5 mm e isolados. Isso se deve a maior facilidade de visualização dos adenomas mais claros em um fundo pigmentado (vide figuras 3, 4 e 5)10.  Os adenomas raramente são pigmentados, embora haja relatos de melanosis nos mesmos11.

 

Figura 3: adenoma em paciente com melanosis coli

 

Figura 4: aspecto com cromoscopia óptica (NBI)

 

Figura 5: fotomicrografia de polipectomia. Área central (não pigmentada) correspondente a adenoma.

 

Como mostrado nas Figuras 6 e 7, uma biópsia submetida à coloração de hematoxilina eosina mostra macrófagos em lâmina própria preenchidos com grânulos de pigmento de cor marrom.

Figura 6: fotomicrografia mostrando macrófagos com grânulos de pigmento na lâmina própria

Figura 7: fotomicrografia mostrando macrófagos com grânulos de pigmento (maior aumento)

A pigmentação pode ocorrer após o curto prazo de uso do laxativo, sendo encontrados relatos após 6 meses de uso. Além disso, esta é uma condição reversível podendo regredir após 1 ano de interrupção12.

Apesar da ausência de relação definida entre melanosis coli e neoplasia10, 11, esta pode não ser uma condição inofensiva, visto que demonstra um sinal de agressão crônica da mucosa, necessitando de mais estudos para uma conclusão definitiva.

Agradecimentos a patologista Dra Rafela Pinheiro pelo fornecimento das figuras das lâminas.

 

Referências:

  1. Steer HW, Colin-Jones DG. Melanosis coli: studies of the toxic effects of irritant purgatives. J Pathol. 1975; 115(4):199±205. https://doi.org/10.1002/path.1711150403 PMID: 1159566.
  2. Ghadially FN, Parry EW. An electron-microscope and histochemical study of melanosis coli. J Pathol Bacteriol. 1966; 92(2):313±7. https://doi.org/10.1002/path.1700920207 PMID: 5964370.
  3. Cruveilhier J. Anatomie pathologique du corps humain, ou Descriptions, avec figures lithographie \0301es et colorie\0301es, des diverses alte\0301rations morbides dont le corps humain est susceptible: Paris, 1829±1835; 1835.
  4. Virchow R. Die pathologischen Pigmente. Arch. Pathol. Ant, 1847; 1(2): 379±404. https://doi.org/10. 1007/BF01975874
  5. Byers RJ, Marsh P, Parkinson D, et al. Melanosis coli is associated with an increase in colonic epithelial apoptosis and not with laxative use. Histopathology. 1997;30:160–164.

6. Freeman HJ. “Melanosis” in the small and large intestine. World J Gastroenterol. 2008;14:4296–4299.

7. Marshall JB, Singh R, Diaz-Arias AA. Chronic, unexplained diarrhea: are biopsies necessary if colonoscopy is normal? Am J Gastroenterol. 1995; 90(3):372±6. PMID: 7872272.

8. Lee FD. Importance of apoptosis in the histopathology of drug related lesions in the large intestine. J Clin Pathol. 1993; 46(2):118±22. PMID: 8459031.

9. Walker NI, Smith MM, Smithers BM. Ultrastructure of human melanosis coli with reference to its pathogenesis. Pathology. 1993;25:120–123.

10. Blackett JW, Rosenberg R, Mahadev S, Green PHR, Lebwohl B. Adenoma Detection is Increased in the Setting of Melanosis Coli. J Clin Gastroenterol. 2018 Apr;52(4):313-318. doi: 10.1097/MCG.0000000000000756. PubMed PMID: 27820223.

11. Coyne JD. Melanosis coli in hyperplastic polyps and adenomas. Int J Surg Pathol. 2013;21:261–263.

12. Liu ZH, Foo DCC, Law WL, Chan FSY, Fan JKM, Peng JS. Melanosis coli: Harmless  pigmentation? A case-control retrospective study of 657 cases. PLoS One. 2017 Oct 31;12(10):e0186668. doi: 10.1371/journal.pone.0186668. eCollection 2017. PubMed PMID: 29088250; PubMed Central PMCID: PMC5663380.

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Foto de perfil de Joel Fernandez de Oliveira

Mestrando em Gastroenterologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Especialização em Endoscopia Oncológica no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo – ICESP.
Residência médica em Endoscopia Gastrointestinal no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

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5 Comentários

  1. Foto de perfil de Felipe Paludo Salles

    Joel parabéns pelo post, nunca tinha visto laminas de histologia do quadro. Quanto a orientação pós exame nos pacientes que não conseguem ficar sem laxativos. É recomendada a troca de medicamentos? E quais seriam os laxativos indicados? Abraço

  2. Foto de perfil de Bruno Martins

    Parabéns pela revisão Joel. Sempre tive a impressão da facilitação de detecção de adenomas nessa situação, mas não sabia que existiam evidências. E vc colocou uma bem recente. Será que é “novidade”? Abs

  3. Foto de perfil de Joel Fernandez de Oliveira

    Obrigado Felipe.
    Na verdade não existe uma definição clara sobre a necessidade de interrupção deses medicamentos, porém uma terapia alternativa seria além da utilização de fibras, em especial alimentos com mucilagem (psyllium),o uso de fenolftaleína (lacto-purga), polissacarídeos (lactulose), emolientes fecais (humectol d) ou lubrificantes (óleo mineral) também são opções.

  4. Foto de perfil de Joel Fernandez de Oliveira

    Obrigado Bruno.
    Realmente os trabalhos mais antigos não confirmavam esse fato porém em estudos mais recentes esses aspecto foi evidenciado. Em minha experiência também percebo uma maior detecção de pólipos nesses pacientes.

  5. Foto de perfil de Fagner Cabral

    Ola… muito boa a revisao!
    Também havia observado uma maior detecção de polipos nessas situações!
    Vocês costumam biopsiar? Quando o quadro clínico é sugestivo, em minha prática não tenho biopsiado.
    Abracos

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