Cromoendoscopia com ácido acético na vigilância do esôfago de Barrett é superior ao protocolo padronizado de biópsias aleatórias : resultados obtidos através de um grande estudo de coorte

Cromoendoscopia com ácido acético na vigilância do esôfago de Barrett é superior ao protocolo padronizado de biópsias aleatórias :  resultados obtidos através de um grande estudo de coorte
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Esse paper foi publicado na revista Gastrointestinal Endoscopy (GIE) em setembro de 2014.

Atualmente, várias tecnologias  endoscópicas estão disponíveis para realização de cromoscopia , digital ou óptica, com diferentes taxas de sucesso. Essas tecnologias são fabricantes-dependente (Fujinon-FICE, Olympus-NBI, Pentax-iScan) e têm implicações financeiras na atual era de austeridade financeira . O ácido acético é um corante de contraste, barato e  bastante disponível, que é utilizado na detecção de neoplasia em pacientes com esôfago de Barrett . Estudos demonstram sua eficácia na detecção de neoplasia em subgrupos de risco elevado para câncer (por ex: adenocarcinoma em pacientes com Barrett), mas a sua eficácia em pacientes onde há uma baixa prevalência de neoplasias seu papel ainda não está estabelecido.

 

Objetivo : Este estudo teve como objetivo investigar a eficácia da cromoendoscopia com  ácido acético no esôfago de Barrett em uma população sob vigilância de adenocarcinoma. O objetivo foi comparar a taxa de detecção de neoplasia com a cromoendoscopia com ácido acético (CAA) versus a taxa de detecção de neoplasia com biópsias aleatórias padronizadas (BAP) na vigilância de rotina de pacientes com esôfago de Barrett.

Desenho: Estudo de coorte retrospectivo (histórico).

Local : Hospital terciário de referência no Reino Unido

Pacientes: pacientes maiores de 18 anos com diagnóstico de esôfago de Barrett e em porgrama de vigilância para neoplasia

Intervenções : taxa de detecção de neoplasia com CAA versus BAP na vigilância esôfago de Barrett.

Resultados

  • Pacientes submetidos à biópsias aleatórias padronizadas (BAP) : 655
  • Displasia de alto grau encontrada nesse grupo : 7/655
  • Câncer T1 encontrado nesse grupo : 3/655
  • Displasia de baixo grau encontrada nesse grupo : 3/655
  • Total : 13/655 (2%)

 

  • Pacientes submetidos à cromoendoscopia com ácido acético (CAA): 327
  • Displasia de alto grau encontrada nesse grupo : 18/327
  • Câncer T1 encontrado nesse grupo : 14/327
  • Displasia de baixo grau encontrada nesse grupo : 9/327
  • Total : 41/655 (12,5%)

 

CONCLUSÕES

Este é o primeiro estudo que avalia a eficácia do uso de ácido acético como corante de contraste em uma população sob vigilância . Ele demonstra que o  ácido acético detecta mais neoplasias do que as biópsias aleatórias e exige 15 vezes menos biópsias para detectar neoplasias.

Limitações

Os resultados desse trabalho realmente são surpreendentes, principalmente se levarmos em conta que o braço que fez uso do ácido acético necessitou de 15 vezes MENOS biópsias para detectar 6 vezes MAIS neoplasias em comparação com o braço de biópsias aleatórias. Além do impacto do tempo gasto na realização de todas essas biópsias “desnecessárias”, talvez o fator mais relevante seja o custo-benefício do grupo submetido a cromoendoscopia com ácido acético, afinal além de grande redução no número de biópsias necessárias para detecção de neoplasia nessess pacientes, é um corante de contraste barato e extensivamente disponível. A grande limitação desse estudo é a não randomização da amostra, porém com esses resultados impactantes, acredito que seja um argumento convincente para que trabalhos randomizados e controlados venham a ser realizados em um futuro próximo.

Link para o artigo original :

http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0016510714001059

 

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Foto de perfil de Renzo Feitosa Ruiz

• Doutorado em andamento pelo Depto. de Gastroenterologia da FMUSP
• Médico do Serviço de Endoscopia Digestiva do Hospital Israelita Albert Einstein
• Médico do Serviço de Endoscopia Digestiva do Hospital Alemão Oswaldo Cruz

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10 Comentários

  1. Foto de perfil de Bruno Martins

    Os resultados desse artigo são realmente impressionantes. Vamos ver se esses resultados se confirmam nos futuros estudos. Por enquanto, nenhuma tecnologia ou cromoscopia substitui o exame cuidadoso com luz branca, seguido das biópsias dirigidas + biópsias aleatórias nos 4 quadrantes.

    Importante ressaltar a técnica de utilização do ácido acético:
    – 10-20 ml de ác acético a 2-2,5%
    – áreas normais tendem a ficar esbranquiçadas
    – áreas displásicas tendem a permanecer avermelhadas
    – melhor detalhamento da superfície em busca de áreas irregulares ou diferentes do padrão adjacente.

  2. Excelente atualizacao deste artigo. Ha muito uso Ac.Acetico a 1.5. com luz branca Rubem Knecht

  3. Cromoscopia digital X Cromoscopia com acido acético ; qual o artigo de referência ?

  4. Olá Luiz! Segue a referência : Pohl J., May A., Rabenstein T., et al. Comparison of computed virtual chromoendoscopy and conventional chromoendoscopy with acetic acid for detection of neoplasia in Barrett’s esophagus. Endoscopy 2007; 39: 594-598.

  5. Ola boa noite qual a vantagem ou nao de se usar o lugol na investigacao de areas displasicas com ou sem magnifcacao em comparacao ao acido acetico! Abcs

  6. Olá, Paulo. Normalmente não está indicado o uso de lugol na investigação de áreas displásicas no Barrett e sim no epitélio escamoso esofágico para diagnóstico de áreas iodo negativas que podem indicar a presença de carcinoma espinocelular (CEC).

  7. Boa noite! Gostaria de saber se existe algum trabalho comparando o azul de metileno e o ac acetico para pesquisa de displasia no Barrett, e se alguem usa de rotina o azul para seguimento. Obrigado

  8. Renzo, ótimo artigo! Parabéns pela seleção.
    Concordo com o Bruno que nada substitui um exame cuidadoso. Gosto ainda de utilizar Acetilcisteína no esôfago distal para remover todo o muco e facilitar a visualização de áreas suspeitas. Alguém faz isso de rotina?

  9. Olá Luiz. O uso de ácido acético realmente ajuda muito. Como vc citou, além de retirar o muco, aumenta o contraste entre as possíveis áreas displásicas e o epitelio colunar. Sempre que há disponibilidade do ác. acético no serviço, eu costumo usar sim.

  10. E a comparação com o azul de metileno, conforme o colega Augusto já questionou acima? Alguma experiência?
    Ótimo artigo!

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