Caso Clínico – Corpo Estanho em Cólon

Caso Clínico – Corpo Estanho em Cólon
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Relato do caso:

Paciente sexo feminino, 75 anos deu entrada no PS por dor abdominal em flanco esquerdo há cerca de 20 dias, hiporexia, perda ponderal de 5kg, astenia e febre. Antecedentes: DRGE. Em uso de omeprazol e domperidona. Ao exame físico: bom estado geral, afebril, eupneica. PA: 130×70, FC:110bpm. Abdome: globoso, flácido, doloroso à palpação profunda em flanco e fossa ilíaca esquerda. DB negativo. RHA +.

RX de abdome: Ausência de sinais de pneumoperitônio mas com distensão de alças colônicas.

 

TC de abdome: Material hiperatenuante alongado na topografia de sigmoide associada a densificação da gordura sugerindo processo inflamatório (microperfuração). Não identificado pneumoperitônio.

 

Optado em realizar colonoscopia que evidenciou um corpo estranho (osso de galinha) em sigmoide transfixando a parede colônica em suas duas extremidades com presença de processo inflamatório local (hiperemia e secreção purulenta) além de inúmeros óstios diverticulares. Optado por mobilizar o osso com pinça de corpo estranho (tipo “jacaré”) para o interior da luz colônica e consequentemente deslocamento da outra extremidade. Realizada retirada sem intercorrências. Optado em colocação de hemoclipes em cada leito. Paciente teve alta após 48h com melhora da dor abdominal, sem febre e boa aceitação de dieta VO.

Discussão:

A ingestão acidental de corpo estranho é um problema frequente em atendimentos de emergência. Felizmente, em apenas 1% dos casos ocorre perfuração em alguma porção do trato gastrintestinal. Os corpos estranhos alongados e pontiagudos (palito de dente, espinha de peixe e osso de galinha) são os que estão mais associados a perfuração sendo o intestino delgado o local mais frequente. O diagnóstico geralmente é tardio e a ingestão do corpo estranho não é relatada pelo paciente. Idosos, usuários de dentaduras, alcoólatras e pacientes psiquiátricos são a população mais predisposta.

A radiografia convencional tem sensibilidade diminuída para a maioria dos corpos estranhos. A tomografia de abdome tem melhor sensibilidade e acurácia para corpos estranhos calcificados e não calcificados.

A perfuração é consequente à impactação e erosão progressiva do corpo estranho contra a parede intestinal. O pneumoperitônio não é comum por conta de o local da perfuração ser recoberto por fibrina, omento e outras alças intestinais o que limita a passagem de grande quantidade de gás para a cavidade peritoneal.

O tratamento endoscópico vs cirúrgico vai depender da presença de complicações (perfurações com abscesso intracavitários, fístulas) mas frequentemente tende a ser conservador (endoscópico).

Referências bibliográficas:
  1. Clin J Gastroenterol.2017 Dec;10(6):491-497
  2. Nicolodi GC et al Radiol Bras. 2016 Set/Out;49(5):295–299
  3. World J Surg Oncol.2011 Feb 18;9:24. doi: 10.1186/1477-7819-9-24
  4. Wien Klin Wochenschr.2009;121(5-6):220-2
  5. Acta Gastroenterol Latinoam.1997;27(5):329-30

 

Como citar esse artigo:

Carlos, A. Caso Clínico – Corpo Estranho em Cólon. Endoscopia Terapêutica; 2018. Disponível em: https://endoscopiaterapeutica.com.br/casosclinicos/caso-clinico-corpo-estanho-em-colon/

 

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Foto de perfil de Alexandre Carlos

Médico Assistente do Departamento de Gastroenterologia do Hospital das Clínicas de São Paulo
Membro titular da FBG e SOBED
Membro titular do Grupo de Estudos da Doença Inflamatória Intestinal do Brasil (GEDIIB).

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2 Comentários

  1. Foto de perfil de Flávio Ferreira

    Parabéns Alexandre! Caso complexo e desafiador. Analisando retrospectivamente teria receio de fazer o exame pois se tratava de uma paciente idosa, taquicárdica, com relato de febre e queixa de dor abdominal que apresentava em tomografia densificação de gordura sugerindo processo inflamatório (possível microperfuração apesar da ausência de pneumoperitôneo ou líquido livre intracavitário). Certamente uma avaliação multidisciplinar foi realizada sendo indicado o exame após concordância da família e equipe, incluindo o cirurgião. Como foi feito o contato com o paciente e familiares para discussão do caso? Foi apresentada a possibilidade de não se encontrar o corpo estranho, sobre risco de cirurgia de emergência etc? Foi feito um termo específico para este fim explicitando estes riscos? Outra dúvida fica a respeito do preparo e anestesia, fizeram no centro cirúrgico?? Insuflação de CO2?? Realmente muito interessante e ilustrativo. Parabéns pelo caso! Abraço

  2. Foto de perfil de Alexandre Carlos

    Obrigado Flávio.
    Diante de caso como este o ideal é fazermos o exame com todo o aparato possível para minimizar as complicações tais como:
    – Realizar exame com assistência anestésica.
    – Insuflador com CO2 quando disponível sempre é benéfico por causar menos distensão .
    – Escopia pode ser útil nas situações em que o corpo estranho não é localizado.
    – Uso de overtube pode ser interessante.
    Interpretamos que o exame valia a pena ser feito para tentar tratamento conservador.
    Este caso foi discutido com o grupo da cirurgia e todos, inclusive familiares, estavam cientes do risco potencial de desbloquear a perfuração.
    Naqueles casos em que não se dispõe de anestesista e escopia no setor de endoscopia é mais interessante mesmo fazer em centro cirúrgico.
    Outro detalhe: nestes casos sempre peço para que o médico assistente acompanhe o procedimento.
    Att
    Alexandre Carlos

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